O edifício Jequitibá, de 18 pavimentos, aproxima-se em altura dos maiores edifícios em madeira já construídos mundialmente. Por isso, uma estrutura híbrida madeira-concreto foi concebida com especial atenção, visando a resistir às ações verticais e horizontais, bem como à ação do fogo. Nesse contexto, algumas soluções inovadoras foram propostas.
O formato circular do edifício, além de fornecer elegante e leveza, proporciona um melhor desempenho aerodinâmico, evitando, por exemplo, o coeficiente de arrasto quando comparado a uma edificação prismática tradicional. O sistema de contraventamento é composto por núcleos rígidos de concreto nas circulações verticais, conectados por vigas radiais a uma cascata externa composta por pilares de MLC e inovadores painéis CLT curvos, os quais vêm sendo alvos de pesquisas recentes, como por exemplo por Stecher et al. (2016). Deste modo, a seção transversal do edifício aproxima-se de uma seção tubular, potencializando a construção em altura. Planejamos realizar uma verificação mais criteriosa deste sistema de contraventamento nas etapas posteriores do projeto, através de uma análise numérica pelo método dos elementos finitos.
As cargas verticais são transmitidas das lajes mistas CLT-concreto para as vigas de MLC, e então descarregadas nos pilares de MLC e nos núcleos de concreto. Essas cargas chegam ao primeiro pavimento, totalmente estruturadas em concreto armado, e então são transmitidas às fundações. Em relação à segurança estrutural contra incêndios, as lajes mistas de concreto CLT criam barreiras de propagação entre os pavimentos, e os núcleos verticais de concreto determinam rotas de fuga protegidas. Além disso, os elementos de madeira massiva utilizados podem ser dimensionados para resistir ao fogo por tempo elevado, a partir do conhecimento da taxa de carbonização da madeira adotada, tendo em vista que a crosta carbonizada isola termicamente o interior das peças, mantendo suas propriedades resistentes inalteradas.
DORMF + STRELKA
Nesta proposta, apresentam-se três projetos de edificações multifamiliares com utilização significativa de sistemas estruturais em madeira engenheirada e uma possível configuração de quarteirão urbano típico, adicionando também atividades comerciais e comunitárias.
O projeto busca equilíbrio e beleza no tecido urbano, partindo da valorização de ruas ativas e intensamente ocupadas por pedestres, que favorecem encontros espontâneos e múltiplas formas de interação social. A proposta se baseia em quarteirões relativamentepequenos, porosos e entrelaçados com uma arquitetura de vanguarda. Explora-se a interioridade dos quarteirões, oferecendo alternativas de caminhos mais rápidos, silenciosos e bucólicos, complementando os passeios periféricos, ricamente preenchidos por lojas e restaurantes. Uma construção baixa e linear conecta os edifícios residenciais, ajudando a moldar os espaços legíveis dentro do quarteirão, ao mesmo tempo em que oferece espaço para atividades comerciais e comunitárias, as quais entendemos como complementos essenciais para a habitação. Acima delas, os moradores encontram abundantes terraços comunitários para banhos de sol e socializações. A vegetação desempenha um papel importante, não sendo utilizada apenas de forma decorativa, mas sim como parte integrante da paisagem, sem sobrepor-se à essência primordialmente urbana e ativa da proposta.
Quanto à arquitetura, o projeto respeita a plasticidade e as qualidades materiais específicas de cada edifício, caracterizando a expressividade destes por meio de manipulações sutis na disposição dos elementos de fachada. As plantas são flexíveis em sua essência, utilizando as fachadas como sistemas não apenas de iluminação, ventilação e isolamento térmico e acústico (tendo em vista as excelentes propriedades térmicas do CLT), mas também como parte integrante do sistema estrutural, especialmente no contraventamento das edificações. As fachadas também são utilizadas como solução para armazenagem, mesas de trabalho e balcões de cozinha. Os painéis CLT externos são protegidos por membranas hidrofugantes e revestidos, visando uma maior durabilidade. As áreas úmidas são dispostas de forma linear, racionalizando a construção e deixando amplas zonas livres para os espaços principais dos apartamentos. Garante-se assim flexibilidade, não apenas para mudanças de layout das unidades, como também para reorganizações de pavimentos inteiros caso necessário, permitindo que os edifícios acomodem alterações de uso em um período muito mais longo de tempo.
Os três edifícios propostos priorizam o uso de sistemas estruturais em madeira maciça, especialmente madeira laminada colada (MLC) e madeira lamelada cruzada (CLT). As paredes externas em CLT são protegidas por membranas hidrofugantes e revestidas com ripas de madeira serrada, tratadas com preservantes naturais ou pela técnica shou sugi ban, que aumenta a durabilidade do material por meio da carbonização superficial. Além do desempenho termoacústico, essas paredes contribuem, em alguns casos, para o contraventamento das edificações.
Todos os elementos de madeira são protegidos da umidade ascendente por meio de fundações em concreto armado e conexões metálicas, não detalhadas nesta etapa do projeto. As paredes internas não estruturais são constituídas por sistemas leves de vedação, estruturados por montantes de madeira serrada ou LVL, com isolantes termoacústicos e fechamentos em painéis OSB e placas de gesso, reforçando a flexibilidade arquitetônica proposta.
As circulações verticais concentram núcleos em concreto armado, que garantem rotas de fuga protegidas contra a propagação do fogo. Embora a madeira maciça apresente bom desempenho estrutural em situação de incêndio, devido à formação de uma camada carbonizada que preserva seu núcleo resistente (Pinto, 2001), sua inflamabilidade justifica a adoção desses núcleos, que também contribuem de forma significativa para o contraventamento dos edifícios.



















